domingo, 22 de julho de 2012

Curar não é só molhar!



O termo “Cura”, quando associado ao concreto, pode ter diferentes interpretações. Diz-se que quando um concreto atinge resistências elevadas em pequenas idades, ele tem uma “cura” rápida. Quando da desforma, é necessário que se obedeça ao tempo mínimo de “cura”. Quando terminada a concretagem, deve-se iniciar a “cura” imediatamente. Aqui, iremos usar a palavra “cura” para tratar dos cuidados referentes à manutenção da umidade do concreto e porque ela é tão relevante para a qualidade da construção.

Sim, “manutenção da umidade” é a melhor forma pela qual consigo me referir a cura. Porque muitas pessoas acreditam que curar uma peça concretada significa molhar após o endurecimento do concreto. Então acreditam que o ato de se aspergir água sobre a superfície é garantia de uma cura bem feita. Mas curar significa mais que isso. Significa manter a umidade original do concreto, até que o concreto não mais precise dela. Significa tomar alguma providencia para que a água não evapore da superfície, até que o concreto:

·         Tenha finalizado completamente os processos de hidratação do cimento;

·         Obtenha resistência suficiente para suportar os esforços de retração por secagem;

A água de dosagem adicionada ao concreto tem dupla finalidade. A primeira delas é servir como catalizador para o processo de endurecimento, já que o cimento portland (estamos tratando de concreto de cimento portland) é um aglomerante hidráulico. A água serve como meio de solução dos Silicatos e Aluminatos de Cálcio presentes no cimento. Também participa como componente das reações que promovem a formação dos cristais que garantem o endurecimento e o ganho de resistência, a partir destes compostos primordiais. Sem a água, essas reações não se completariam e o cimento continuaria a ser um pó inerte. Existe um valor mínimo de quantidade de água, em relação ao peso de cimento presente na mistura, necessário a garantir uma hidratação suficiente, apesar de haverem controvérsias a respeito do numero exato. Mas as experiências bem sucedidas das quais tomei parte não puderam atingir número menor do que 25%. Ou seja, o cimento parece precisar do mínimo de um quarto do seu peso em água para reagir corretamente. E o curioso é que quanto mais água se adiciona além desse mínimo, piores são os resultados dessa hidratação, principalmente porque os cristais maiores, como a portlandita e a etringita passam a ser formar em maior número, em detrimento do C-S-H, que garante a maior parte da resistência do concreto.

Então, porque não adicionar apenas 25% (do peso de cimento) de água? Por causa da segunda função da água, a mais evidente e observável, que é conferir a plasticidade desejada, a fluidez necessária à trabalhabilidade do material. Mesmo quando se usa aditivos químicos poderosos para tentar substitui-la nesse ofício a água ainda cumpre um papel importante no controle da viscosidade e na reologia. Por isso, na esmagadora maioria das vezes a quantidade de água necessária supera em muito o quarto do consumo de cimento. Essa água excedente irá variar, extensamente, com o slump de aplicação, o tipo de aditivo usado, a granulometria dos agregados, o tipo de cimento, o tempo de transporte, etc, etc, etc... Concretos comuns tendem a ter entre 160 e 250 L de água por m3. E toda essa água precisa permanecer dentro do concreto.

Primeiro, falando sobre a hidratação. Se permitirmos que o concreto perca, mesmo que apenas na superfície da peça, a água mínima necessária ao endurecimento correto do cimento, fatalmente teremos problemas. Quem nunca viu um piso de concreto, uma viga ou uma laje apresentarem uma superfície frágil, pulverulenta, desagregada? Uma das causas mais frequentes é a perda de água na primeira camada superficial, antes do fim de pega do cimento, fazendo-a mais frágil que o substrato inferior e, portanto, mais suscetível ao desgaste. Neste ponto, alguém pode pensar: “se uma parte da água se evaporar, mas for mantido pelo menos o a/c 0,25, acima mencionado, provavelmente o concreto ficará com a superfície até mais forte!” Bom isso pode ser até correto, em certa medida, mas aí entramos no segundo tópico: a retração por secagem.

Assim que lançamos o concreto, a água começa, imediatamente, a se evaporar. Ora, essa evaporação leva o concreto a perder matéria, massa, ao mesmo tempo em que a perda de elasticidade inerente ao processo de endurecimento, levam o volume (externo) da peça a se manter constante. Então, o concreto não tem outra escolha, senão abrir espaço para compensar essa perda de massa. Essa abertura se dá na forma de trincas que se originam de tensões internas de retração. Elas se manifestam de duas maneiras:

·         Nos primeiros minutos após o lançamento, antes do fim de pega, a exsudação natural do concreto fornece à superfície um suprimento constante de umidade. Ao mesmo tempo, a evaporação consome essa umidade em uma dada velocidade. Se a velocidade de evaporação for maior que a de exsudação, surgem pequenas e incômodas fissuras superficiais, de pequena espessura, não mais que 1 ou 2 mm, com a aparência da figura abaixo:

  

·         Após o fim de pega, se a maior parte da água se evapora, as tensões são tão altas que surgem fissuras de grande abertura, muito maiores que o milímetro, formando figuras geométricas. Isso porque, nessa altura, o concreto já não oferece quase nenhuma elasticidade. Como abaixo:



Então surge naturalmente a pergunta: Até quando devemos manter a cura? Bom, quanto à hidratação, pouco depois do fim de pega o cimento já não necessita mais de água para manter a sua reação, porque esta já caminha praticamente por conta própria. Então resta a retração. Aí, o próprio ganho de resistência gradual do concreto, que promove as fissuras ao reduzir a elasticidade, também leva o concreto a atingir uma determinada condição onde é capaz de resistir às tensões da retração e não mais fissurar. Então, devemos tomar providencias para que a umidade original não saia da mistura até que o concreto atinja a resistência mecânica mínima para suportar as tensões internas de retração. E essa resistência mecânica, traduzida em resistência à compressão, aparentemente esta em torno de fc 15,0 Mpa. Ou seja, a partir de 15 Megapascal o concreto não fissura mais por retração, aí podemos deixar a água ir embora, sem maiores problemas. Isso inclusive é texto da norma brasileira, no item 10.1 da ABNT NBR 14931 de 2004, que trata sobre a execução de estruturas de concreto armado.

Assim como saber até quando manter a água no concreto, muito importante também é saber quem é o inimigo, ou seja, o que promove a perda de água do concreto, afim de combater todas as causas. E eu dividiria em duas grandes frentes:

·         Absorção pelo substrato. Formas de madeira, solo natural, sub-bases granulares, lajotas cerâmicas de lajes pré-moldadas, podem absorver excessivamente a água do concreto. Medidas como impermeabilização de formas, cobertura do solo com filme plástico, saturação de lajotas, são etapas indispensáveis à concretagem;

·         Evaporação da superfície. Quatro fatores básicos controlam e determinam a evaporação: Temperatura do Ar, Temperatura do Concreto, Umidade Relativa do Ar e Velocidade do Vento. Basta que uma das variáveis assuma um determinado valor crítico que as fissuras fatalmente aparecerão, sem a devida proteção. Segundo o ACI (American Concrete Institute) se a evaporação atingir valor igual ou superior a 1,8 L/m2*h, o concreto irá fissurar.

Resumindo, a cura deve evitar que a água do concreto se perca por absorção ou evaporação a partir do momento de lançamento até a obtenção do fc 15,0 Mpa. Como fazer isso? Diversos são os métodos. Películas químicas, mantas, nebulizadores, lamina de água, inibidores de evaporação... E cada um pode ser mais eficiente que outro, conforme o tipo de peça concretada. É preciso que um plano de cura seja elaborado, para cada empreendimento: cinco ou seis linhas de instruções que são a única diferença entre uma laje perfeita ou um monte de trincas e vazamentos. Simples assim.

12 comentários:

  1. Boas explicações. Parabéns pela iniciativa.

    Anderson.

    Caiomar Ind. de Lajes Pré-moldadas.
    Schroeder -SC.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pela presenca, meu caro Anderson! Desejo a voce muito secesso ai nas lindas terras catarinenses!

      Excluir
  2. Parabéns, Carlos!

    Você conseguiu explicar algo complexo usando alguns termos técnicos e mesmo assim fez-se entender e ajudou com certeza todos que leram e lerão a explicativa acima.

    Grato,

    Att. Lucas
    N.Iguaçu/RJ

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Prezado Lucas, destas ensolaradas terras fluminenses! fico muito honrado com a tua presença e muito feliz com teu comentário. Espero que se sinta sempre muito bem vindo aqui e prometo dividir tudo aquilo que eu puder. forte abraço!

      Excluir
  3. obrigado pela explicaçao, me ajudou um pouco mas confesso que tenho algumas outras informaçoes a serem colhidas para a execuçao de um trabalho,. Muito obrigado

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Prezado! Caso voce tenha alguma duvida especifica, mande um email, ou comente por aqui. A gente pode dar um geito de achar as respostas juntos. Forte abraco!

      Excluir
  4. Boa tarde Carlos Resende ! Estou fazendo um trabalho de faculdade sobre a cura do concreto, e estou tendo uma certa dificuldades de achar o tempo de cura específico de cada tipo de concreto , achei esse artigo em um site ''' A nova norma de "Execução de Estruturas de Concreto" NBR 14931/2003, recomenda que a cura deva se estender por um período até que o concreto atinja resistência de 15,0 MPa. Recomenda-se na prática manter a cura por no mínimo cinco dias'''' essa prática de manter a cura por cinco dias, serve para qualquer tipo de concreto? (convencional, auto-adensável,armado..) Obrigado desde já ;)

    ResponderExcluir
  5. Caro Leonardo! Espero que seu trabalho seja um sucesso. Entao, vamos supor que um fck 20, seja feito com um cimento tipo CPIII 40, por exemplo. Este cimento tem ganho de crescimento mais lento, entao pode ser que demore ate duas semanas pra atingir 15 MPa. Se for um fck 30, talvez com uma semana, um pouco mais, ja tenhamos os 15. De outro lado, com CPV, muito mais rapido, o mesmo fck 20 ja poderia estar em 15 MPa com 3, 5 dias, resistente as fissuras. Vai depender do fck e do tipo de cimento, portanto. Eu costumo orientar nossos clientes a manter a cura por 14 dias, independente de qualquer coisa, se isso for possivel. Mas essa regra dos 15 MPa parece funcionar bem, se voce puder controlar a evolucao das resistencias ou preve-la com qualidade. Espero que te ajude. Forte abraco!

    ResponderExcluir
  6. hey there and thank you for your info – I have certainly picked up anything
    new from right here. I did however expertise a few technical issues using this website,
    since I experienced to reload the site many times previous to
    I could get it to load correctly. I had been wondering if your web host is OK?
    Not that I am complaining, but slow loading instances times
    will very frequently affect your placement in google and could damage your high quality score if ads and marketing with Adwords.
    Anyway I am adding this RSS to my e-mail and can look out for a lot more of your respective intriguing
    content. Ensure that you update this again soon.

    Here is my site; clothing lines

    ResponderExcluir
  7. Can you tell us more about this? I'd love to find out some additional information.

    Feel free to surf to my web-site clothing store

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hello, Olga!
      It is a huge pleasure to have you here, and to know that you had find good info from the post. I am sorry about these issues on the site, and promise to check it out. Maybe could be something related to the translation, since I am texting in Portuguese, my native language. About the theme of curing procedure for concrete, yes I have some further information thanks to a recent experiment we had the opportunity to conduce in the lab. Spite of some restrictions about sharing this kind of results, I think it is possible to send you something useful. Please, send me an email on resende.carlos@ymail.com.
      warm regards!

      Excluir

Comente, critique, contribua. A casa é sua!

 

Concreto: Propriedades, descobertas e casos interessantes Copyright © 2011 | Template design by O Pregador | Powered by Blogger Templates